terça-feira, 6 de setembro de 2011

Platão e a política
Conforme já estudamos, Platão foi um discípulo de Sócrates e ambos eram cidadãos de Atenas. Enquanto cidadãos atenienses, o que se esperava dos dois é que participassem ativamente do governo da cidade, ou seja, uma de suas atribuições era a participação na política. Mas lembre-se de que foi essa mesma Assembléia, da qual eles faziam parte ,que condenou Sócrates à morte, depois de ele ter sido acusado de negar os deuses e corromper a juventude com seus ensinamentos. À época da morte de Sócrates, em 399 a.C., Platão contava com 29 anos de idade e era um dos principais seguidores das idéias defendidas por seu mestre.
O julgamento de Sócrates (descrito por Platão em seu livro A apologia de Sócrates) e sua posterior condenação marcaram profundamente o pensamento de Platão acerca da política. Ele passou a desacreditar da democracia. Mas, é claro, não foi esse o único fator que fundamentou a filosofia política platônica. Na verdade, o pensamento político de Platão é um desdobramento de sua teoria do conhecimento.
Você deve se lembrar de que Platão faz distinção entre o mundo sensível, percebido pelos sentidos, e o mundo inteligível, percebido pelas idéias – e, por isso, também chamado de mundo das idéias. A bem da verdade, essa distinção se processa no próprio ser humano, sendo o corpo o responsável pelo mundo sensível, enquanto a alma é a responsável pelo mundo das idéias. E não se esqueça de que para esse filósofo ateniense, fundador da Academia, o verdadeiro conhecimento sobre as coisas só pode ser alcançado no mundo das idéias, enquanto, no mundo sensível, o máximo que podemos apreender são as imagens distorcidas das coisas (lembra as sombras na caverna?) Há uma coisa a ser esclarecida. A idéia de alma para Platão nada tem a ver com espiritualidade, religião. Trata-se, na verdade, da razão humana.
Em seu diálogo chamado A República, Platão descreve o Mito da Caverna, por meio do qual ele exemplifica a distinção que faz entre os dois mundos. Nessa mesma obra, ele escreve algumas de suas principais concepções sobre política. Vejamo-las, então.


Perceba que Platão identifica no ser humano três tipos de alma (racional, irascível e concupiscente) e cada uma delas corresponde a uma parte do corpo. As três almas são importantes, assim como as três partes do corpo que formam o todo. Entretanto, o ser humano não deve ser dominado pelas almas irascível e concupiscente, ou seja, ele não pode ser movido apenas pela “força-violência” ou pela “paixão-desejo”. Essas duas almas devem estar sob o controleda razão, a mais nobre das três, porque é a única capaz de manter o bom funcionamento do todo (imagine se fôssemos guiados apenas por nossos sentimentos e desejos).
Com relação a uma cidade, segundo Platão, o funcionamento não pode ser diferente. Na cidade, os equivalentes às três almas humanas são a classe dos dirigentes (racional), a classe dos militares (irascível) e a classe dos produtores (concupiscente). Essa é a divisão da “cidade ideal” pensada e defendida por Platão. Nela, o governo não pode estar nas
mãos de todos, porque as pessoas devem ser separadas de acordo com as suas funções na sociedade. O comando deve estar nas mãos daqueles que estão mais próximos da razão. Associando com o Mito da Caverna, a idéia é a de que o governante só pode ser aquele que consegue abandonar o mundo das sombras e chegar à luz verdadeira, ou seja,
abandonar o mundo sensível e abraçar o mundo inteligível. Em outras palavras, o governante deve ser um filósofo.


sexta-feira, 27 de maio de 2011

“Estamos condenados à liberdade”

O existencialismo
O existencialismo foi uma das correntes filosóficas mais importantes da segunda metade do século XX, devido especialmente ao filósofo francês Jean-Paul Sartre.
Este pensamento tem como fundamento o reconhecimento da existência frente à essência, ou seja, antes de sermos qualquer coisa – humana ou não humana – o que faz sermos algo é nossa existência durante o nosso tempo de vida.
Apesar de ter alcançado um grande desenvolvimento no século XX, as origens do existencialismo remontam ao século XIX, com filósofos como Kierkegaard, Nietzsche e Husserl, mais preocupados com a realidade concreta do cotidiano humano do que com as ideias produzidas por esse cotidiano. Os trabalhos desses filósofos influenciaram diretamente, além de Sartre, o pensamento de Martin Heidegger e de Maurice Merleau-Ponty, no século XX.
A filosofia existencialista se divide em duas tendências: a cristã e a humanista. Aqui, vamos nos deter ao existencialismo humanista, que recebe essa denominação em razão da afirmação absoluta do homem. Isso significa que, para este pensamento filosófico, o homem é definido por sua existência e ela é finita, daí a necessidade de se construir o devir e ser consciente de suas ações.
Sartre: a filosofia da existência
Jean-Paul Sartre nasceu em Paris, França, no dia 21 de junho de 1905.
Graduou-se em Filosofia na Escola Normal Superior entre 1924 e 1928, onde conheceria Raymond Aron (1905-1983), o sociólogo francês mais importante de sua geração, e Simone de Beauvoir (1908-1986), companheira e colaboradora de Sartre.
Foi nomeado professor de Filosofia em Havre no ano de 1931. Durante os anos de 1933 e 1934, fixou-se em Berlim como professor do Instituto Francês. De volta à França, lutou na Segunda Guerra Mundial em 1939, ficando prisioneiro no ano seguinte e sendo libertado em 1941.
Merleau-Ponty (1908-1961), visitou os EUA em 1945, como jornalista. A partir da década de 1950, aderiu ao comunismo. Em 1960, visitou o Brasil, onde conferiu uma palestra na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara, interior do estado de São Paulo. Na plateia estava, entre outros, o então jovem sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que viria a ser presidente do Brasil.
Além de filósofo, escreveu obras literárias e peças de teatro. Entre suas obras mais importantes destacamos A imaginação, A transcendência do ego, A náusea, O ser e o nada, O existencialismo é um humanismo e Crítica da razão dialética. Sartre faleceu em 15 de abril de 1980.
O ponto de partida de Sartre é o básico do existencialismo: a existência precede a essência, de forma que o homem só pode “ser” existindo, ou seja, vivendo. Isso esgota qualquer predefinição do ser humano. Assim, Sartre nega qualquer espécie de teoria sobre a natureza humana e até mesmo a crença em Deus, pois, para esse pensador francês, o homem existe para si, isto é, ele não foi criado por nenhuma essência preexistente. Daí o seu existencialismo ser também um humanismo.
Nessa concepção ontológica (o “vir a ser” ou o “devir”) de que a existência precede a essência, podemos constatar que o homem parte do nada, daí a liberdade ser uma condição permanente da espécie humana. Como afirma Sartre, “estamos condenados à liberdade”. A existência em si é definida, em princípio, pelo nada, ou seja, pelo não-ser; tudo está por ser feito e o homem será o futuro que puder construir.
Só que a obrigação de ser livre gera uma angústia no homem, pois escolher uma atitude ou ter uma decisão significa eliminar outras. E mesmo que o indivíduo tenha má fé, ou seja, mesmo que ele tente voluntariamente negar para si as suas escolhas, não há como escapar de sua liberdade de decisão quanto ao seu rumo.
A responsabilidade também faz parte do pensamento sartreano, pois ela é decorrência da liberdade do homem e significa que toda atitude tem consequência para com tudo que o cerca; daí a necessidade de o ser humano agir corretamente.
Com o existencialismo, a crítica à filosofia essencialista alcançou seu apogeu.
Para Sartre, (...) só as coisas e os animais são “em si”, isto é, teriam uma essência. O ser humano, dotado de consciência, é um “ser-para-si”, ou seja, é também cons-ciência de si. Isso significa que é um ser aberto à possibi-lidade de construir ele próprio sua existência. Por isso, é possível referir-se à essência de uma mesa (aquilo que faz com que uma mesa seja mesa) ou à essência do animal (afinal, todos os leões têm as características próprias de sua espécie), mas não existe uma natureza humana en-contrada de forma igual em todas as pessoas, pois “o ser humano não é mais que o que ele faz”.
ARANHA, M. L. A., MARTINS, M. H. P. Temas de filosofia. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2005, p. 39.

A questão do conhecimento nos séculos XIX e XX Neste capítulo, veremos duas correntes filosóficas que se opuseram ao essencialismo característico da F

O materialismo histórico

Karl Marx: primeiras considerações

Karl Marx nasceu em Trier (Alemanha), no ano de 1818. De origem judia, seu pai converteu-se ao luteranismo por causa do antissemitismo crescente na época. O jovem Marx, contudo, não manteve sua religiosidade por muito tempo. Estudou Direito na Universidade de Bonn e de Berlim e doutorou-se na Universidade de Iena, em 1841, com uma tese sobre a filosofia da natureza, de Demócrito e de Epicuro.

Após uma fracassada experiência editorial na Alemanha, Marx estabeleceu-se na França até 1845, quando foi expulso por causa de suas atividades políticas vinculadas ao nascente e crescente movimento socialista.

O pensador alemão passou então a viver em Londres, onde permaneceu até sua morte, em 1883.

Entre as principais obras de Marx estão A ideologia alemã, O manifesto do partido comunista (essas duas escritas em parceria com Friedrich Engels), A miséria da Filosofia, O dezoito brumário de Luis Bonaparte, Contribuição à crítica da economia política e O capital.

As ideias desse pensador foram responsáveis por um amplo movimento que ficou conhecido como marxismo. Este movimento se manifestou tanto de maneira prática como teórica. Na prática, foi fundamental para a ocorrência de revoluções socialistas. No aspecto teórico, sua influência foi de tal maneira que diversas áreas do conhecimento acadêmico, como a História, a Economia, a Política, a Sociologia, a Antropologia e, certamente, a filosofia, estão marcadas até hoje pelas ideias desse intelectual.

A Filosofia como ação transformadora

A filosofia de Marx é conhecida como materialismo histórico ou materialismo dialético. A força desse pensamento reside na combinação de três grandes correntes intelectuais da época: a filosofia alemã, a economia política inglesa e a teoria política francesa. Da filosofia alemã, Marx parte do idealismo de Hegel, de quem também extrai a dialética; contudo, Marx rompe com Hegel, afirmando que ele teria enxergado a realidade de cabeça para baixo, ou seja, de maneira invertida.

O materialismo de Marx se fundamenta no princípio de que a realidade não é algo imutável, mas sim um processo histórico permanente, que obedece a uma lei baseada no fato de que o processo histórico está acima da vontade dos indivíduos e é determinado pelas condições materiais; daí sua filosofia ser conhecida como materialismo histórico.

É nesse sentido que Marx também rompe com o “idealismo hegeliano”. No lugar do “idealismo dialético” de Hegel, ele emprega o materialismo histórico dialético. Para compreender o homem em suas relações com outros homens e com o mundo, é preciso partir da análise do concreto, ou seja, das ações humanas concretas, e não das ideias que os homens fazem a respeito de si. No Prefácio da contribuição para a crítica da economia política, Marx escreveu: “Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; é o seu ser social que, inversamente, determina a sua consciência.”

Com esse pensador, a questão da ideologia tomou ares críticos e passou também a ser aceita por vários filósofos após Marx. E olha que nem todos concordavam inteiramente com a sua filosofia! Mas a sua formulação de ideologia é realmente bastante elucidativa. De uma maneira bastante geral, podemos afirmar que a ideologia é um conjunto de ideias, de pensamentos e de representações que os seres humano produzem sobre a realidade com a qual convivem. Essas ideias são utilizadas no dia a dia para orientar as discussões, que podem, por exemplo, ser políticas, ou de qualquer outra natureza.

A crítica de Marx é sobre a concepção dessa ideologia, ou seja, como ela surge. Contrariando a filosofia existente até então, Marx afirma que a ideologia é um reflexo das relações materiais que os homens estabelecem para sobreviver e que, portanto, ela não está acima da humanidade. A ideologia não pode ser tomada como algo metafísico, ao contrário, ela deve ser tomada como resultado dos esforços concretos, materiais, que a humanidade realiza para a sua reprodução. A ideia não antecede o homem, mas é sua criação.

As ideologias servem como orientação para os mais variados modos de se viver e, quando são apropriadas indevidamente por alguns grupos específicos (e isso ocorre com frequência), acabam se tornando modos de dominação. Segundo Marx, esse é o maior problema das ideologias generalizantes.

Marx tem uma outra concepção de Filosofia, qual seja, a de que ela deve possuir o caráter da transformação, da prática; trata-se da filosofia da práxis, isto é, a filosofia como ação transformadora. No livro A ideologia alemã, ele e Engels escreveram: “Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diferentes maneiras; mas o que importa é transformá-lo.”

Partindo da preocupação com as bases materiais de produção através das quais os seres humanos se relacionam e constroem-se, Marx enxerga o processo histórico como uma luta de classes sociais entre a classe dominante, que detém os meios de produção, e a classe dominada, que possui a força de trabalho. Essa luta de classes sociais se configura em modos de produção situados historicamente. Assim, temos os modos de produção asiático, escravista, feudal e capitalista. Todos possuem forças produtivas que se refletem nas relações sociais de produção, em que a exploração da força de trabalho é uma constante. Voltaremos a essas e outras questões do marxismo em Sociologia. Por enquanto, basta percebermos que, com Marx, a Filosofia ganha outros ares investigativos e outras preocupações.

Quando o teórico elabora sua teoria, (...) [ele] julga estar produzindo ideias verdadeiras que nada devem à existência histórica e social do pensador. Até pelo contrário, o pensador julga que com essas ideias poderá explicar a própria sociedade em que vive. Um dos traços fundamentais da ideologia consiste, justamente, em tomar as ideias como independentes da realidade histórica e social, de modo a fazer com que tais ideias expliquem aquela realidade, quando na verdade é essa realidade que torna compreensíveis as ideias elaboradas.

CHAUI, M. O que é ideologia. 38. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 10-11. (Coleção “Primeiros Passos”)

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Os sentidos e a razão


O “estagirita”

Aristóteles (384-322 a.C.) nasceu em Estagira, atual Macedônia, e foi o mais ilustre discípulo de Platão. Seu pai, Nicômaco, foi médico do rei Filipe da Macedônia que, por sua vez, era o pai de Alexandre, o Grande (realizador de um dos maiores impérios da história da humanidade), de quem Aristóteles foi professor. Em 340 a.C., alguns anos após a morte de seu mestre, Aristóteles fundou em Atenas a sua própria escola, chamada Liceu. Em 323 a.C., ano da morte de Alexandre Magno, Aristóteles foi levado ao tribunal por motivos religiosos. Foi condenado, mas, ao contrário de Sócrates, aceitou o banimento e morreu no ano seguinte.

Esse pensador, que era extremamente sistemático e metódico, filosofou basicamente sobre todos os assuntos já pensados por seus antecessores (os pré-socráticos, Sócrates e Platão). Estudou sobre a natureza do homem, pesquisou as formas de governo e as razões da política e pensou até sobre a poesia, que, segundo ele, é o gênero literário mais próximo da filosofia, além de estabelecer as primeiras regras para o estudo da lógica. Contudo, nesse primeiro momento vamos nos concentrar na sua teoria do conhecimento.

A importância dos sentidos para o conhecimento

O ponto de partida para conhecermos a filosofia de Aristóteles vem de sua discordância em relação à teoria do conhecimento proposta por Platão, que afirmava ser necessário ao filósofo ater-se ao estudo do mundo das ideias (mundo inteligível). Para Aristóteles, a “alma” não está separada do “corpo”, mas é um componente dele. Colocando de outra forma: o conhecimento é percebido pelos sentidos e, então, elaborado pela razão. Existe uma interação entre os sentidos e a razão. Segundo Jostein Gaarder,

Aristóteles achava que Platão tinha virado tudo de cabeça para baixo. Ele concordava com seu mestre em que o exemplar isolado do cavalo “flui”, passa, e que nenhum cavalo vive para sempre. Ele também concordava que, em si, a forma do cavalo era eterna e imutável. Mas a “ideia” cavalo não passava para ele de um conceito criado pelos homens e para os homens, depois de eles terem visto um certo número de cavalos. A “ideia” ou a “forma” cavalo não existia, portanto, antes da experiência vivida. Para Aristóteles, a “forma” cavalo consiste nas características do cavalo, ou seja, naquilo que chamaríamos de espécie.
(...)
(...) Para Platão, o grau máximo de realidade está em pensarmos com a razão. Para Aristóteles, ao contrário, era evidente que o grau máximo de realidade está em percebermos ou sentirmos com os sentidos. Platão considera tudo o que vemos ao nosso redor na natureza meros reflexos de algo que existe no mundo das ideias e, por conseguinte, também na alma humana. Aristóteles achava exatamente o contrário: o que existe na alma humana nada mais é do que reflexos dos objetos da natureza. Para Aristóteles, Platão foi prisioneiro de uma visão mítica do mundo, que confundia as ideias dos homens com a realidade do mundo.
O mundo de Sofia. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 122-123.

Assim sendo, o filósofo deve buscar o conhecimento daquilo que realmente existe partindo de conceitos que exprimem nossas ideias sobre o mundo sensível. E, para não cair no mesmo jogo de palavras que os sofistas faziam, faz-se necessário realizar uma classificação das palavras, pois elas formam as afirmações que conduzem ao conhecimento.

As palavras são classificadas por categorias e estas são cerca de 10: substância, quantidade, qualidade, ação, paixão, relação, lugar, tempo, posição e estado.

Contudo, Aristóteles observou que a questão da transformação era muito importante e elaborou as noções de ato e potência. O ato seria o estado atual do ser, enquanto a potência seria aquilo em que o ser se transforma (“devir”), sem que deixe de ser o mesmo. Assim, uma criança é um ato enquanto criança, mas enquanto potência será um adulto, sem deixar de ser um humano.

As transformações e o movimento são os responsáveis pelo modo no qual as potências se tornam atos. E para Aristóteles isso não ocorre por acaso, pois sempre há uma causa. Consequentemente, existem quatro causas: material, formal, motriz (ou eficiente) e final. Assim, tomemos como exemplo uma estátua: o mármore seria a causa material; um modelo para o artista realizar o seu trabalho de esculpir a estátua seria a causa formal; o escultor, a causa motriz (ou eficiente); e, por fim, exibir a estátua seria a causa final. Lembramos que esta causa é a mais importante para que a potência se transforme em ato.

Feito o estabelecimento dos conceitos e de como ocorrem suas mudanças, o passo seguinte é como utilizar os conceitos de forma a produzir o verdadeiro conhecimento. Assim, os conceitos devem se relacionar gerando proposições (afirmações) que, por sua vez, geram os silogismos (em grego, “cálculo” ou “reunião de raciocínio”), ou seja, o verdadeiro conhecimento. Voltaremos aos silogismos quando falarmos sobre a lógica.

A obra na qual Aristóteles tratou de classificar os conceitos abstratos como “pensamento”, “piedade” e “bem”, entre outros, ficou conhecida como Metafísica, ou seja, “aquilo que vem depois da física”. Lembre-se de que a grande questão para ele era conseguir apreender o “Ser enquanto Ser”, isto é, apreender o Ser em sua substância, e não lhe dar um sentido meramente transcendental.

Uma última questão: Platão e Aristóteles, cada qual à sua maneira, desenvolveram a ideia de que existe uma essência humana universal e, portanto, todas as pessoas tendem a fazer aquilo que é inerente ao ser humano; quando, por alguma razão, isso não acontece, a explicação possível é que ocorreu um acidente que, aliás, deve ser consertado. Segundo afirmam Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins,

Para Platão (...), a verdadeira realidade encontra-se no mundo das ideias, lugar da essência imutável de todas as coisas. Todos os seres são apenas cópias de tais arquétipos e se aperfeiçoam à medida que se aproximam desse modelo ideal. Assim, mesmo existindo inúmeros tipos de pessoas, a ideia de humanidade é uma e imutável.

Para Aristóteles (...), todo ser tende a tornar atual a forma que tem em potência. Por exemplo: a semente, quando enterrada, transforma-se no carvalho que era apenas em potência. Quando essa ideia é transposta para os seres humanos, conclui-se que também eles têm formas em potência a serem atualizadas, ou seja, a sua natureza essencial se realiza aos poucos, em direção ao pleno desenvolvimento daquilo que eles devem ser. Tanto para Platão como para Aristóteles, a plenitude humana coincide com o aperfeiçoamento da razão.

Temas de Filosofia. 3. ed. rev. São Paulo: Moderna, 2005, p. 38.


terça-feira, 15 de março de 2011

O nascimento da filosofia

Apesar de podermos utilizar a palavra filosofia de um modo amplo, a filosofia propriamente dita nasceu na Grécia Antiga, no século VI a.C. A origem da palavra vem do grego philosophia, cujo significado é “amigo do saber” (philo = amigo e sophia = saber).

Como já vimos, a filosofia tem o uso da razão como instrumento para obter o conhecimento (razão, em grego, é logos). A característica principal do uso da razão pelos filósofos é o fato de que ela é capaz de esclarecer de maneira sistematizada as questões a serem solucionadas.

Mas por que a filosofia surgiu na Grécia? Uma resposta possível é a de que os gregos tinham uma relação muito “pessoal” com seus deuses, enquanto esses deuses eram a reprodução da figura humana, ou seja, continham as virtudes e os defeitos dos homens. Perceba que sua própria mitologia aproximava os gregos de uma maior preocupação com a figura humana. Essa centralização no humano fez com que, lentamente, a mitologia fosse dando lugar a um pensamento mais focado no logos, isto é, na razão.

Em outras palavras: alguns gregos, por volta do século VI a.C., sentiram a necessidade de encontrar algo mais concreto para explicar o mundo que os cercava, pois já não lhes satisfazia as explicações fantasiosas dos mitos. Era o ser humano preocupado em conhecer; começava assim uma longa jornada de desenvolvimento da razão, que se estende até os nossos dias.

Os primeiros filósofos gregos

Os primeiros filósofos começaram a se destacar na Grécia no século VI a.C. (600-501 a.C.). Sua preocupação essencial era explicar a origem e o funcionamento do mundo exterior, por isso são conhecidos como “filósofos da natureza”, pois suas inquietações iam mais na direção da compreensão e da explicação dos fenômenos da natureza do que da essência humana. O primeiro filósofo grego que se concentrou na análise do ser humano foi Sócrates, já no século V a.C. Em função disso, todos os filósofos gregos anteriores a ele são incluídos no grupo dos pré-socráticos, não apenas por estarem situados cronologicamente antes de Sócrates, mas por terem uma preocupação em comum: a natureza (e não o homem).

Tales de Mileto é considerado o primeiro filósofo pré-socrático e, portanto, o primeiro filósofo grego. Ele pertenceu ao grupo dos filósofos jônicos, assim como Anaximandro, Anaxímenes, Anaxágoras, Empédocles e Heráclito. Outro pré-socrático de destaque foi Pitágoras, pertencente à escola itálica. Mas ainda devemos destacar os representantes da escola eleática, como Xenófanes, Parmênides e Zenão, além dos integrantes da escola atomista, Leucipo e Demócrito.

Explicar a origem do mundo de forma racional é a função da cosmologia (“estudo do mundo”), que substituiu a cosmogonia (explicação do mundo por meio dos mitos). Para os filósofos pré-socráticos, a grande questão era saber como por meio do caos (desordem) foi possível a criação do cosmos (mundo). Esses pensadores acreditavam que o princípio (em grego, arché) de todas as coisas seria a razão explicativa para a ocorrência dessa transformação. A água, o ar, o átomo ou a combinação de água, terra, fogo e ar foram algumas das respostas dadas por esses filósofos. Esses elementos seriam a manifestação física da arché, ou seja, a physis (forma). Essa teoria se contrapunha às explicações mitológicas, que se baseavam na ideia da criação do mundo a partir do nada. Porém, é importante ressaltar que a passagem do pensamento mítico para o racional-lógico se deu de maneira lenta, pois é possível encontrar resquícios de mitologia nos filósofos pré-socráticos.

Heráclito de Éfeso e Parmênides de Eleia

Para alguns filósofos pré-socráticos, uma questão ainda persistia: como um princípio físico podia dar origem a diversas coisas? A explicação para essa pergunta está na kinesis, isto é, no “movimento” ou “transformação”. É o que chamamos de devir. E os filósofos que se destacaram para ilustrar essa explicação foram Heráclito, da cidade de Éfeso, na Jônia, e Parmênides, natural de Eleia, hoje território italiano.

Heráclito (540 a 470 a.C., aproximadamente) buscava entender a multiplicidade das formas reais e, para isso, entendia que o movimento é algo constante, impulsionado pela luta de forças contrárias (por exemplo, o bem e o mal, o quente e o frio, a ordem e a desordem); tudo se transforma, mesmo que não seja observável pelos nossos sentidos, que seriam limitados para verificar o movimento que possibilita a existência. Como afirmou: “Nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio”, pois esse rio muda pelo movimento de suas águas e o homem também se transforma pelas mudanças, não só orgânicas como psicológicas. Resumindo: “tudo flui”.

Parmênides (530 a 460 a.C., aproximadamente), crítico de Heráclito, afirmava que seria impossível acreditar que o movimento fosse uma constante, pois uma coisa ou um ser não podem “ser” e “não-ser” ao mesmo tempo. Para questionar o exemplo do rio, Parmênides concluiu que o movimento não pode ser desprezado e tampouco superestimado, pois o movimento só existe para o mundo sensível, ou para os nossos sentidos, enquanto para o mundo inteligível, ou seja, para o mundo das ideias (a razão), o movimento é ilusório, pois todo ser tem sua identidade que não pode ser contrafeita. Resumindo: “as coisas que existem fora de mim são idênticas ao meu pensamento, e o que eu não conseguir pensar não pode ser realidade”.

Heráclito e Parmênides inauguraram uma discussão que passou a ser um dos grandes desafios para os filósofos gregos que viveram depois deles, em especial, Platão e Aristóteles. O conhecimento verdadeiro passa pelos sentidos para chegar à razão ou só pode ser formulado diretamente pela razão? O que vemos, tocamos e sentimos, de uma maneira geral, são apenas ilusões? Se a razão por si só é a fonte de toda sabedoria, isso quer dizer que já nascemos sabendo, ou seja, que o conhecimento é inato? As respostas possíveis a essas questões orientarão praticamente toda a história do pensamento filosófico, chegando, inclusive, até nossos dias.